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Microcontos

Até para o plágio é preciso talento.


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28 Dezembro

Microconto rodrigueano

Ele entrou na sala. Puxou a maçaneta com força, para ajustar o trinco emperrado desde o tempo em que ainda usava calças curtas sem se envergonhar. Abriu a presilha do coldre e tirou o revólver que havia recebido de herança do pai. Vasculhou a gaveta semi-aberta da cômoda, pegou uma caixa de munição escondida entre as roupas de baixo e preencheu os dois vazios do tambor. Depositou a arma, acendeu um Fulgor e foi enxaguar um copo imundo na pia. Tinha pudor da sujeira. Lembrava de sua mãe abandonando seus afazeres para ir ter com o vizinho do 201. Viveu na sujeira até a morte dela. Lavou as mãos com creolina, quase histérico. Só então, vendo a água turva girar pelo ralo, lembrou do dia em que o pai chegara mais cedo em casa.
06:33:00 - Sorel -

24 Dezembro

Microconto alla greca

Ele entrou na ágora. Empurrou a multidão e sentou-se num degrau mais elevado da assembléia. Quando os olhos dos presentes se fixaram nele, abriu a boca e proferiu uma daquelas peças de retórica que faziam sua fama junto aos mais jovens, dispostos a pagar por suas aulas. Pedia a condenação de Narciso por mau uso dos recursos hídricos da pólis, tão escassos agora que a época de plantação de oliveiras se aproximava. Moção aprovada, retirou-se e levou Alcebíades pra almoçar.
06:30:00 - Zeno -

19 Dezembro

Microconto pôlaiano

ele desandou p/ dentro do bar alcunhalado "etilírico", na lapa profunda, passando pela porta pivotante parcial/e emperrada – porra de prumo!! abriu a pasta a-treisoitão e sacaneou u’a caneta hidrofóbica das artigas: sus! e lá se vão 2 guardanaupos espalhafatados no balcão do bar, caneta em riste, 2 croquis p/ a eternidd e 1 dia. depôs a danada, pôs fogo num maubôro e se indispôs c/ o garção, ao exigir um copo limpo p/ o escocês.
14:19:29 - Zeno -

15 Dezembro

Microconto dostoievskiano

Ele entrou na sala. Puxou a maçaneta com força, para ajustar o trinco emperrado. Abriu a presilha do coldre e tirou o revólver. Vasculhou a gaveta semi-aberta da mesa, pegou uma caixa de munição e preencheu os dois vazios do tambor. Depositou a arma, acendeu um cigarro e foi enxaguar um copo imundo na pia. Deitou no divã e fechou os olhos por um segundo. Colocou a mão no coldre e viu que estava sem a arma. Olhou em volta e a viu na mesa. Pegou a arma e vasculhou o tambor à procura das balas faltantes. O tambor estava cheio. Contou as balas da caixa de munição. Já não sabia se algum dia havia usado aquela arma. Levantou-se e saiu. Na rua, andava sem saber para onde até que se viu diante do prédio onde ela morava. Subiu as escadas, ouvindo o barulhos dos vizinhos brigando e rindo. Chegou ao quarto andar e seguiu pelo corredor até o cômodo que ela dividia com a amiga. A porta estava trancada.
10:52:00 - Sorel -

12 Dezembro

Microconto sveviano

Ele entrou na sala esbaforido, remoendo na cabeça uma chusma de idéias contraditórias. Puxou a maçaneta e fechou a porta uma, duas, três vezes para se certificar. Tornou a fechar mais uma vez. Abriu o casaco, jogou-o sobre o sofá e gritou qualquer coisa para a governanta velha e surda, um traste inútil que se agregara à família nos tempos de seu pai e que ele já não tinha forças para mandar embora. Vasculhou a gaveta semi-aberta da escrivaninha, pegou uma caixa de canetas e preencheu compulsivamente duas páginas inteiras com sua letra miúda. Precisava pôr ordem em seus pensamentos. Talvez, se conversasse com seu médico, ele poderia ajudá-lo – mesmo sendo este um cretino inepto que comprara seu diploma junto ao corrupto Corpo Administrativo da universidade. Depositou a caneta, acendeu um dos seus cigarros prediletos, daquela tabacaria atrás da Piazza Unità, e pensou: amanhã paro de fumar.
10:41:14 - Zeno -

11 Dezembro

Microconto viscontiano

Ele entrou na sala, adornada com um Gobelin de mais de sete metros que dominava praticamente todo o ambiente. Puxou a maçaneta com força, para ajustar o trinco emperrado desde o século XIII. Abriu a presilha da bainha e sacou a espada imaculadamente limpa. Vasculhou a gaveta semi-aberta da escrivaninha "alla inglese" (uma excentricidade que sua mãe olhava com condescendência), pegou uma caixa de jóias e tirou displicentemente um anel rubro que pertencera a Bianca Maria, sobrinha de Luciano Sforza e esposa do Imperador Maximiliano. Usando o anel como prisma, olhou sem ver a coleção de pinturas "gruppo de famiglia in un interno" que ocupava de alto a baixo a parede em frente da escrivaninha. Depositou o anel com ar pensativo, acendeu um charuto curto e fino e encaminhou-se para a sala de banhos, jogando as peças de roupa pelo caminho. O marquês de P. já o aguardava lá.
09:16:12 - Zeno -

Microconto kafkiano

Ele entrou na sala. Puxou a maçaneta suavemente, para não fazer barulho. Abriu a presilha da pasta e tirou um maço de documentos. Vasculhou a gaveta semi-aberta da mesa, pegou uma caixa de formulários e preencheu os dois primeiros. Depositou a pasta, acendeu o fogão para esquentar água e foi enxaguar um copo imundo na pia. Bateram à porta.
07:25:52 - Zeno -

10 Dezembro

Microcontos

Ninguém pediu. Alguns temiam. Outros se opuseram. Mesmo assim, insistimos e resolvemos inaugurar a subseção Microcontos, uma praga que costuma assolar blogs como o amarelinho das laranjas paulistas tão festejado pelo Maluf em debate com o Covas. Eis os dois primeiros:

Microconto hammettiano
Ele entrou na sala. Puxou a maçaneta com força, para ajustar o trinco emperrado. Abriu a presilha do coldre e tirou o revólver. Vasculhou a gaveta semi-aberta da mesa, pegou uma caixa de munição e preencheu os dois vazios do tambor. Depositou a arma, acendeu um Bull Durham e foi enxaguar um copo imundo na pia.

Microconto chandleriano
Ele entrou na sala. Puxou a maçaneta com força, para ajustar o trinco emperrado. Abriu a presilha do coldre e tirou o revólver. Vasculhou a gaveta semi-aberta da mesa, pegou uma caixa de munição e preencheu os dois vazios do tambor. Depositou a arma, acendeu um Camel e foi enxaguar um copo imundo na pia. Só então, vendo a água turva girar pelo ralo, pensou na garota.
20:03:04 - Zeno -

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