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Je me souviens

Eu te lembro que esta seção tem como dívida explícita o “Je me souviens” de Georges Perec, o livro de Geraldo Mayrink e Fernando Moreira Salles e a série “Ich erinnere mich” publicada no Die Zeit.


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30 Novembro

Eu me lembro

Eu me lembro que não existia essa história de "me vê dois/seis/quatro pãezinhos" na padaria. Só se comprava bengala, que era mais em conta do que os pãezinhos unitários, caríssimos, "um luxo". Quando a família era pequena ou a fome, pouca, pedia-se a "meia-bengala", e o padeiro cortava a danada ao meio e a embrulhava no que era chamado, com justiça, de "papel de pão", e ninguém se preocupava com o que fazer com a outra metade porque daqui a pouco iria aparecer mais um freguês para levá-la pra casa. Como esse negócio de dinheiro era uma ficção que se só se consubstanciava uma vez por mês, a despesa era anotada na caderneta, junto com algum doce cujos nomes não me lembro mas que eram variações de goiabada e marmelada em formatos variados (dentro de um copinho de "isopor comestível" com a pazinha em cima, ou em forma de pinheiro estilizado, com açúcar em volta, etc), e assim ia mais um garoto feliz da vida de volta à casa, com o embrulho precioso embaixo do braço.
14:05:28 - Zeno - 3 comentários

21 Novembro

Memória fashion

Eu me lembro de camelôs coaxando "calcinha da Anabela, cueca do Volpone", meias da Júlia Matos em Dancin' Days, badulaques de não-sei-mais-quem e quetais, mas não me lembro de ouvir ninguém propagando as virtudes estéticas do terninho xadrez do imortal detetive Mário Fofoca.

É que ontem na porta do cinema tinha um sujeito vestido num costume igualzinho —me caia um raio na cabeça se for mentira— e me bateu um banzo daqueles.
15:30:00 - Pinto - 3 comentários

17 Novembro

40 e 2 é pouco I

Eu me lembro quando perdi o prazer pela literatura. Foi depois de uma noite mal dormida e um dia de muito trabalho. Não sei bem em que mês ou ano porque eles se pareciam muito naquela época. Um sem número de livros técnicos, biografias e jornalismo encadernado foram consumidos sem parcimônia para manter o vício da leitura.
21:09:19 - Sorel - Comentar

40 e 2 é pouco II

Eu me lembro quando voltei a ter prazer com a literatura. O ano era 2003 e o livro ‘A consciência de Zeno’, do Svevo. O livro é ótimo, mas não foi por isso. É que cada uma das páginas foi utilizada para colocar em dia a conversa entre dois amigos de infância que tinham acabado de se conhecer.
21:08:45 - Sorel - Comentar

40 e 2 é pouco III

Eu me lembro quando batizei esse blogue de Zeno. O Hipopótamo veio não sei de onde, mas me contaram que foi do Machado, da introdução do Memórias... Depois desse dia, nunca mais penso nada sem antes perguntar de onde minhas idéias vêm.
21:08:16 - Sorel - Comentar

40 e 2 é pouco IV

Eu me lembro que um dia me disseram que beber da mesma marca de uísque é uma justa homenagem. Concordo. Reputar o prazer pela literatura não fica atrás.

40 e 2 é pouco. Feliz aniversário.
21:07:20 - Sorel - 2 comentários

04 Novembro

Travel & Living no Hipopótamo Zeno Channel

Por DJ Mandacaru

Se valer impressão de 20 anos atrás, fecho com o Pedro.

Éramos três casais em dois bugs dispostos a fazer o roteiro Fortaleza-Natal. Pela praia. Uns doze dias de viagem, com algumas paradas pelo caminho. Chegamos em Icapuí no terceiro dia, com o sol quase se pondo, uma das imagens mais lindas que eu já vi. Um dos caras descobrira a praia seis meses antes. Fotografou - e ficou amigo de - todo mundo. Nessa viagem ele levava as cópias, para muita gente do local era a primeira vez que se viam em retratos. Um pescador amigo cedeu sua casa - quarto e sala, com armadores suficientes para penduramos nossas redes - e mudou-se para a casa da mãe.

Durante os dias, ócio na varandinha da casa, a uns dez metros do oceano (maré cheia), cerveja gelando num isopor, cana da boa. A meninada, excitadíssima com os estrangeiros, se encarregava de pegar mexilhões brancos e lagostins, que eram imediatamente levados à panela, numa fogueirinha ali do lado. De tempero, só limão e sal. Quando cansavam de brincar de pescar para os novos amigos, ajudavam as mães, na varanda ao lado, a fazer toalhas de renda, gigantescas, o tecido sendo pacientemente desfiado e fiado novamente, com desenhos intrincadíssimos, ou simplesmente começavam uma outra brincadeira, com aquela energia inesgotável que um dia já tivemos. [Leia mais!]
17:41:28 - Pinto - 1 comentário

02 Novembro

Eu me lembro

Eu me lembro do tempo em que não existia a picanha. Não existia no sentido literal: desconfio que os bois de então não tinham aquele pedaço de carne em seus corpos, um pedaço que foi desenvolvido - depois de muita pesquisa genética - por algum japonês de Cotia/SP, injetando substâncias estranhas no bicho, da mesma maneira que faziam com as frutas esquisitas que apareceram na mesma época. O experimento deu certo, e de uma hora pra outra (1970 e alguma coisa) os restaurantes, os supermercados, as churrascarias e os lares foram invadidos pelo tal corte, "picanha isso", "picanha aquilo", e assim vai. Em resumo: a picanha é prima da nectarina.

P.S.: Ainda no mesmo assunto, eu me lembro quando a tirania do bife-temperado-na-véspera foi revogada, circa (alô, ombusdman!) 1980. Em vez daquela trabalheira de deixar os bifes temperados um dia antes, com alho, cebola, óleo Maria e – sim, é verdade – orégano, descobriram repentinamente que dava pra fritar os bifes na hora de comer: "Mas na hora de comer, assim, sem tempero?", "Sim!", e aí, pra tentar melhorar o que parecia um sacrilégio, inventaram um tal Bife Rápido, que consistia em fritar o bicho, sem tempero, salgá-lo depois e acrescentar um vinagre por cima*. Foi um sucesso semelhante à Lei Áurea. Sem mais nem menos, e sem se incomodar com eventuais atentados gastronômicos redivivos, milhares de donas de casa eliminaram aquele incômodo item do check list diário ("Temperou o bife?") e passaram a empurrar goela da família abaixo os tais bifes com sal e vinagre.

*segundo meu Personal Consulteitor pra assuntos gastronômicos, o Sorel aqui do blog, o azedinho do vinagre era posto pra emular o efeito do marinado de véspera. Faz sentido.
08:03:00 - Zeno - 8 comentários

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