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Je me souviens

Eu te lembro que esta seção tem como dívida explícita o “Je me souviens” de Georges Perec, o livro de Geraldo Mayrink e Fernando Moreira Salles e a série “Ich erinnere mich” publicada no Die Zeit.


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29 Abril

Plus ça change

Deu no Globo On Line:

BRASÍLIA - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse hoje que a inflação poderia ser de 2,5% a 3% se não houvesse fatores como a pressão do preço de produtos como feijão, leite e derivados. Tirando o feijão, o feijãozinho que todo mundo come, nós teríamos uma inflação de 4,4%. Se tirássemos leite e derivados, diminuiria mais 0,3 [ponto percentual] , disse.
Segundo o ministro, a inflação está controlada e perfeitamente bem comportada.


E eu me lembro do Mantega desancando o Simonsen e a inflação do Xuxu no jornal Movimento, mas isso faz taaaanto tempo...
16:17:41 - DJ Mandacaru -

18 Abril

Os sinos dobrando, as bruxas de Salém e nós aqui travessos

Sobre o tal episódio, que me recuso a nominar, vi o noticiário agora dando conta de uma multidão diante da casa dos avós cantando "Parabéns pra você", por ser hoje o dia em que a menina faria aniversário. Achei algo tão sórdido quanto o crime em si.

Me lembrei de um outro episódio, de muito tempo atrás e igual sordidez. Um desempregado/desesperado escalou os 80 metros de uma torre de TV logo de manhãzinha e ameaçava se jogar. A multidão lá embaixo incentivava em vez de tentar impedi-lo. Era vizinho a um colégio. Ouviu-se um grito: "Pula logo que minha aula já vai começar". O sujeito não deve ter ouvido, mas obedeceu. Morreu na hora. Acharam farinha no seu estômago, e só. O fotógrafo que registrou a queda ficou tão abalado que, pouco tempo depois, teve um AVC ou algo que o valha, e ficou inválido.

Me lembrei também das aulas da mestra MH, alertando que a psiquê das multidões é toda outra: contra ela ninguém pode, e é bom se acautelar. Henry Miller e John Donne, a seu modo, também disseram coisas parecidas, mas o ruído da turba não os deixa ser ouvidos.
16:22:42 - Pinto -

14 Abril

Eu me lembro do K7



Eu me lembro do dia que descobri que minha filha nunca tinha visto uma dessas. E de um amigo contando que a sobrinha(?) o olhava atônita ignorando o que fazer diante de seus apelos: - Vira a fita, vira a fita que a música que eu quero está do outro lado!
15:11:51 - Sorel -

08 Abril

Eu ontem me lembrei de um bocado de coisas

Eu me lembrei do Carioca, no potinho de papelão, e do gosto do sorvete de chocolate que a Maguary/Kibon parou de fabricar faz uns 30 anos. Lembrei de ter então testemunhado um Xavante da Força Aérea dividir o céu ao meio numa nuvem de fumaça preta para se espatifar numa rua a alguns quilômetros dali. Lembrei da imensa casa da avó, com seu muro baixo encimado por pedrinhas de granito, à guisa do que hoje seria uma cerca elétrica, e dos ladrilhos hidráulicos no chão, dos arcos abobadados e das paredes grossas como não existem mais. Ia esquecendo que lembrei da imensa árvore no meio do jardim, que semprei achei belíssima, mas jamais soube o nome até o mês passado: falsa seringueira. Do meu avô eu não lembrei porque não o conheci, mas soube outro dia que ele despediu-se da casa para nunca mais voltar batendo a mão direita em cada uma das tais paredes, pra ter certeza que elas seriam sólidas o suficiente. Resistiriam ainda por mais 18 anos. Na mão esquerda ele carregava um molho de chaves. Tinha mania de chaves, disseram. Eu me lembrei da mercearia do tio Joaquim, do outro lado da rua, onde se torrava café em grão e depois se moía e onde os secos a granel eram vendidos naqueles medidores de latão: arroz, feijão, açúcar. Não havia sacos plásticos, eram de papel. Do sabor da primeira Coca-Cola não lembrei. Do pão com manteiga, sim. E lembrei da destreza dos meninos da favela vizinha com o pião e a pipa ("arraia", para mim). Com a bola de gude ("bila") e o estilingue ("baladeira"), não: eu era o cara. Sempre tive boa pontaria. Até o dia em que um cartucho calibre 12 deixou de estourar nas minhas pernas, coisa do anjo da guarda, e eu parei de atirar. Me lembrei do eco das músicas cafonas do cabaré e do rádio da vizinha tocando Roberto Carlos, que até o disco de 1977, o da capa laranja, era o máximo. Depois, afundou com as baleias. Me lembrei da minha imensa coleção de carrinhos Matchbox, da qual não sobrou um, nem da de chaveiros, nem da de maços de cigarros. Os carrinhos que meu pai trazia de viagem e ele me erguendo na cacunda ("tum-tum") para descer uma escada e roçar a mão no teto –"Pegou, Pimpão?!"– são das raras boas memórias que eu tenho dele. Me lembrei da chuva torrencial que inundou a casa, da água escorrendo em bicas pelos globos dos lustres. E do cheiro de outras chuvas, essas boas, e do barulho da água na telha. Eu pegando na mão da primeira namoradinha ou subindo nos cajueiros e sirigüeleiras. E lembrei do choque que tomei cutucando (adoro essa palavra) a tomada elétrica com uma minichave de fenda. Eram 220V. Podia ter morrido. Chorei como se tivesse. Lembro das pesadas botas feitas à mão para corrigir a postura do meu frágil pé esquerdo. Eram um incômodo naquele calor, até que descobri que podiam ser usadas como arma de defesa, mais propriamente de ataque. Me lembrei do Fusca, mas não da cor, acho que era azul-bebê, do Corcel vinho como meu Corvette de 6cm, do Opala dourado, placas BT-6331, no qual aprendi a dirigir aos 12 anos, e muitos anos e donos depois vi destroçado num acidente. Me lembrei de tantas outras coisas, boas, ruins, curiosas, pitorescas, com saudade, com afeto, com raiva, mas sem arrependimento, mas acho que já chega por aqui.

Pocoyo

Não sei por quê. Acho que era só insônia. Ou então a presença aqui em casa, há oito meses, desse sujeito aí da foto, que desde antes de chegar me faz imaginar as coisas do jeito de sempre ou de um totalmente diferente, desde que seja para fazê-lo feliz.
23:15:40 - Pinto -

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