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Je me souviens

Eu te lembro que esta seção tem como dívida explícita o “Je me souviens” de Georges Perec, o livro de Geraldo Mayrink e Fernando Moreira Salles e a série “Ich erinnere mich” publicada no Die Zeit.


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25 Setembro

Saudade, palavra triste

Nos idos de 1980 e tantos, eu na flor da idade, me lembro de seguir quase todo fim-de-semana para a finada Praia de Iracema, em Fortaleza, e passar defronte ao hoje extinto Motel Calango*, ali já quase chegando aos barzinhos de sempre. Pela garagem se podia entrever o dístico pintado no alto da parede em letras garrafais:

Não bote boneco**. Pague logo sua mulher.

O referido é verdade e dou fé.

O zelo pela ordem e pelo asseio do estabelecimento ia ao paroxismo no interior das suítes —e aí digo por ouvi dizer, porque lá nunca estive. Em cada uma rezava uma placa:

Favor não limpar o pΩ∂¬ß¥ø§∞£ nas cortinas.

Idem, ibidem.
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* "Lagartixa" (Mabuya frenata), no idioma local. Aquele pequeno réptil que trepa pelas paredes, para quem não está ligando o nome à pessoa.

** Algo como "Não interponha óbices nem cause transtornos".
21:33:02 - Pinto - 5 comentários

06 Setembro

Baixou a cabôca Sontag

Eu me lembro daquele filme "Uma noite sobre a terra", aquele da colagem de situações em táxis. Acho que era do Jarmusch —tenho preguiça de googlar agora e não vem ao caso. Lembro especificamente de um trechinho com o Roberto Benigni, antes de se transformar no mala que de fato virou. Pois bem. Passando por Roma ele via o Hotel delle Genie e começava a se questionar por que catzo o troço se chamava assim, especulando sobre os hóspedes que eventualmente lá estariam acomodados: "Charlie Parkere", carregando no sotaque, "Shakespeare". "Shakespeare, Charlie Parkere", imaginava apresentar um ao outro.

Recordo essa cena específica, e era esse um dos baratos do filme, porque nivelava à categoria dos gênios um sujeito como Charlie Parker. Não sou exatamente um fã ardoroso de jazz, mas não tenho como discordar. E quanto ao velho bardo, não cabem nem comentários. Mas ambos estão mortos —ou permanecem vivos apenas no coração de cada fã, à vossa escolha.

Todo o intróito é para dizer que toda vez que lembro disso me pego imaginando quem seriam os personagens contemporâneos que eu hospedaria no Hotel dos Gênios, para compor a mesma cena. Sempre alterno ou me falta o nome de um, mas o outro é cadeira cativa: Stevie Wonder.

É o gênio mais gênio com quem eu tenho o privilégio de compartilhar uma parte dos meus anos vividos, por sorte muito mais minha do que dele, claro. "Stevie Wonder? Suíte presidencial, senhor". E ainda pediria para autografar a cédula da gorjeta.

Em tempo: Susan Sontag também ocuparia, claro, um quartinho no mesmo endereço.
00:08:41 - Pinto - 4 comentários

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