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Filmes esquisitos

Nós gostamos mesmo é do escurinho.


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30 Junho

Mexido, chacoalhado e com um monte de ossos quebrados

Tem compromisso para o dia sete de novembro próximo? Então cancela. O pedreiro vem .
13:51:06 - Zeno -

24 Junho

E assim dá-se um tempo às bundas neste espaço

"Por que o cinema argentino é tão bom?", eis a pergunta que contribui até para elevar o nível deste blogue. Tome-se o caso de Daniel Burman, por exemplo: sempre a mesma temática (o conflito pai X filho e a ambiência judaica), quase sempre até os mesmos atores (seu ótimo xará Daniel Hendler), e no entanto o resultado são filmes memoráveis como "O abraço partido", ou "As leis da família", este menos que o primeiro, e ainda assim soberbo, superior a qualquer contrapartida brasileira recente, cidades e tropas inclusas. Dois exemplos que, noutro contexto, redundariam em dramalhões dignos de uma Glória Perez. Felizmente passam longe disto. Os dramalhões, eles os vivem na vida real, e aqui terminam os chistes deste post.

Claro que há mais. Citando os mais recentes: "O cachorro", um road-movie com jeitão de documentário (ou o contrário?) que comove. Na mesma seara, "Familia Rodante", um pouco longo mas nada ruim. Mesmo o hollywoodiano "O filho da noiva" não tem similar nacional que lhe faça frente. E olhe que não estamos listando o nunca suficientemente louvado "Kamchatka", infelizmente indisponível em DVD —cuja resposta brasileira, o esquemático "O ano em que meus pais saíram de férias", só tem o mérito de ter o título grafado direito na norma culta. E, já que mencionamos Hollywood, o excelente "Nove Rainhas" rendeu uma contrafação, salvo engano bastardamente batizada de "171", e ainda assim rende boa diversão. E não foram os vizinhos que ganharam um Oscar por "A história oficial", anos atrás?

"O guardião" (nunca, jamais confundir com "O guarda-costas"), sobre as agruras do segurança de um ministro de Estado, é um item à parte. Genial e exasperante, peca pelo psicologismo do desfecho inevitável, mas aquém do prometido, e ainda assim é imperdível. Mesmo com a câmera estacionada na modorrenta rotina de um sujeito à margem da sua própria existência, é um filme que subverte o tédio que retrata e se configura uma obra de arte refinada, pelo menos até os 44 do segundo tempo.

Qual a natureza do fenômeno? Uma comunidade judaica, a maior da América Latina, fluente em linguagem audiovisual? Talvez, mas não, me garante um amigo versado em todos esses temas. Uma gente educada e letrada, para quem roteiro, herança dos livros, é o fio condutor de uma história digna de ser contada? Sem dúvida. E seguramente daí derivam os diálogos fluidos, o enquadramento correto, a edição elegante, a fotografia superior, a montagem conseqüente. Nada de câmeras parkinsonianas e aquele estilo MTV, mais uma desgraça pátria, de acochambrar uma narrativa por não saber diferenciar o que é começo, o que é meio e o que é fim.

E nós aqui nos jactando porque estamos melhor vistos na praça financeira (até quando?) e conseguimos assegurar o empate na recente medíocre partida da seleção contra os portenhos, cujo país está permanentemente "em crise". Eis aí, tout court, a versão revista e atualizada da piada do português.

Em tempo: não perca a série sobre a Argentina no inigualável Idelber.
06:33:14 - Pinto -

18 Junho

Relato de um proprietário (Nagaya shinshiroku, 1947)

Agora estamos com o primeiro filme de Yasujiro Ozu no imediato pós-guerra e, como dizem os francófilos, it shows. Miserê total, moradores numa semi-favela bem pouco zen, subúrbio de Tóquio, que se viram com pequenos rolos no mercado negro pra conseguir o que comer – batata e arroz, basicamente. Mesma discrição de filmagem*, enquadramentos um tico abaixo da beleza do "Filho Único" resenhado antes, com Ozu namorando o mesmo espírito de época que animou os deserdados europeus a criarem o tal neo-realismo. Como nos exemplos italianos, mas com mais bom humor, a história aqui envolve uma mulher de meia-idade, viúva (na guerra?), que tem de alojar em casa um garoto aparentemente abandonado pelo pai numa estação de trens em Tóquio. Ela não quer, os outros vizinhos também não querem, sobra para ela ter de dividir o gohan com ele. A gentileza onipresente no "Filho Único", de antes da guerra, desaparece, mas a disposição de reconstrução de um país começa a dar as caras. A coda final, mostrando um bando de crianças órfãs e abandonadas, brincando num parque em Tóquio (com a estátua do nipo herói do séc. XIX Takamori Saigo emoldurando tudo), é mais eloqüente do que qualquer discurseira bem intencionada.

Mais uma vez, para conferir o filme, será necessário um desembolso substancial de 60 euros (mais frete) numa caixa francesa de DVD's do Ozu, com qualidade marromenos, ou mandar uma nova garrafa de sakê do bom aqui para a redação, que a gente empresta um VHS americano embolorado. Ou então a gente empresta de graça pra quem explicar o título original, já que a tradução fala de um proprietário que, sinceramente, não vimos dar o ar da graça (o título americano também não ajuda: "Record of a Tenement Gentleman").

* (só que com mais ângulos inusitados: de tempos em tempos o filme rendia o divertido jogo de salão "Olha onde ele pôs a câmera desta vez!")

(da série Mês do Cinema Japonês Esquisito no Hipopótamo Zeno)
12:32:58 - Zeno -

17 Junho

Filho único (Hitori Musuko, 1936)

O primeiro filme falado de Yasujiro Ozu, um dos três mestres da primeira geração do cinema japonês, juntamente com Kenzo Mizoguchi e Mikio Naruse. Mãe viúva, morando em cidadezinha, se sacrifica para mandar o filho estudar em Tóquio, só para descobrir, anos depois, que o agora homem se lamenta comodamente das dificuldades da cidade grande.

Talvez existam outros cineastas que saibam enquadrar tão bem como o Ozu, mas não melhor. Já está lá* o famoso estilo "ao pé do chão", câmera baixa filmando o campo de visão de alguém sentado (os closes são filmados subindo um pouco, mas nunca a ponto de flagrar a linha dos olhos dos atores), sem travelling nenhum, colocada sempre num ponto discreto e ao mesmo tempo revelador de intenções.

Tem de tudo no filme, de comentários sutis à industrialização nascente (a mãe rala numa fabriqueta de seda que vai se modernizando com o tempo), passando pela situação dos migrantes morando na perifa do monstro em formação que será Tóquio, até o principal assunto do filme, o quase nada que é quase tudo das relações familiares. E tem aqueles silêncios magníficos entre uma fala e outra, a mostrar tanto a gentileza quanto a formalidade nipônicas, pro bem e pro mal, e que a gente vê até hoje em amigos descendentes criados em famílias japa (mas não o nosso Rapaz da Manutenção do blog, que se avaca-ocidentalhou). De cereja no bolo, há uma estranha atração do filho por coisas ocidentais e, principalmente, tedescas: um hilário pôster "Germany" colado no quarto, um desenho da Joan Fontaine numa porta e uma ida ao cinema, em que ele leva a mãe para conhecer o "cinema falado". Os trechos exibidos pertencem a um filme alemão**, e é curioso que somente no filme dentro do filme vemos as únicas cenas com câmera em movimento alucinado, uma correria por campos filmada com trilho, quase como se Ozu quisesse sublinhar a diferença entre seu estilo e o dos "ocidentais".

Pra conferir o filme, há três opções: ou você desembolsa 10 dólares na YesAsia (mais o frete milionário de zilhões de quilômetros), ou você espera que o Telecine Cult o reprise, ou você manda uma garrafa de sakê do bom (Gekkeikan pra cima) aqui pra redação que a gente empresta nosso VHS embolorado.

* (O que não deve espantar ninguém: ele havia dirigido, até então, entre médias e longas, 35 filmes desde 1927!)
** (Segundo o Imdb, é austríaco, "Leise flehen meine Lieder", de 1933, dirigido por um tal Willi Forst)

(da série Mês do Cinema Japonês Esquisito no Hipopótamo Zeno)
13:42:35 - Zeno -

04 Junho

expect(or)a(n)tivas: ou separadas ao nascer

essa é tudo queu expectava daquela....
23:35:40 - George Smiley -

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