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Almost blue

Chet Baker não foi o melhor trompetista do mundo (longe disso; pra não citar os óbvios, o Fats Navarro era much better).
Seu herói no instrumento foi, inicialmente, Bix Beiderbecke; depois, tentava mimetizar o som sem vibrato de Miles Davis (que, com a cordura que o caracterizava, disse certa feita: "sempre toquei melhor que Chet Baker. Até quando me entupia de heroína").
Como cantor, não tinha as sutilezas da divisão e a elegância do Sinatra, ou (aí é coisa séria) as modulações e beleza do timbre do Johnny Hartman.


Não há um único disco do Chesney que seja imperdível, perfeito, inesquecível. Até pelo fato de que ele nunca teve banda fixa, depois de ser despedido do quarteto pianoless do Gerry Mulligan (que gravou uma soturna e célebre versão instrumental de "My Funny valentine", um dos pontos altos do Chet instrumentista).

Os jazzófilos (esses exóticos membros de uma sociedade secreta) costumam se engalfinhar, e o resultado sói ser: os melhores são os três gravados ao vivo em Paris (1955, pela eMarcy), tour na qual o pianista e amigo-mor , Dick Twardzick, morreu de overdose de heroína.
Ele foi um talento desperdiçado pelas drogas, historinha antiga, mas cruelmente real, entre os músicos do período. Tinha ouvido absoluto, não lia música (anátema pra qualquer jazzman atual), o que só nos surpreende mais ainda. Quando acertou, acertou muito.

Para a seção faits divers: ao ser confrontado com traficantes com os quais estava em débito, ouviu a animadora frase "Se você fosse um pianista, nós lhe quebraríamos os dedos".
Isso: teve os dentes estourados na porrada, e precisou reaprender a tocar usando dentadura.

Da fase terminal, aprecio o "Live in Tokyo", com versões de cortar os pulsos de "Zingaro" (a nossa "Retrato em Branco e Preto") e de "Almost Blue", composta por Elvis Costello especialmente para a epítome da beleza e da arte destruídas pelo vício, e da trilha do "Let´s Get Lost". O "Baby Breeze", dos anos 60, pela Verve, também é bonito.

A influência do canto quase sussurrado de Chet Baker, hipnótico, de andrógina sensualidade de anjo decaído, inspirou um jovem do interior da Bahia a combinar as harmonias complexas do cool jazz com a batida rítmica do samba. Em 1959, saiu "Chega de Saudade", e o resto é história.
Com todas essas ressalvas, eu amava a música do Chesney. Ou talvez ainda ame, mas esteja velho e amargo demais pra confessar.
posted at 13:52:15 on 26-08-2005 by hunter - Category: Tectum Intuentes


Comentários

captcha wrote:

Para fazer as pazes com titio hunter... John Coltrane e Johnny Hartman, My one and only love... que o mundo acabe a gente vá para um Paraíso melancólico e doce...
Daquele baiano, experimenta achar uma versão da primeira música que ele cantou (segundo aquele chato do RC), Malagueña Salerosa (foi parar na trilha do Kill Bill!), no auto-falante de Juazeiro. Você pode imaginar essa cena surreal?
26-08-2005 14:59:31

captcha wrote:

Mas imbatível é a capa de It Could Happen to You: Chet Baker Sings...
26-08-2005 15:12:09

hunter wrote:

A versão não autorizada é que João Gilberto, um dos três baianos que jamais prestaram, se trancou num banheiro com quilos de maconha e discos do Chet Baker e inventou a Bossa Nova.
26-08-2005 15:22:52

Sergio Crouch wrote:

Amigo do peito (do Pinto também) ouviu, pela primeira vez, My Funny Valentine com o Padeiro, naquele CB Sings. Tarou tanto que começou a colecionar gravações da música. Tem hoje perto de 1.300. Em matéria de perversão sexual, é das mais inofensivas que conheço.
26-08-2005 15:43:16

hunter wrote:

Deve ter versão até com os Bee Gees em ritual de satanismo, ou com os Caralhinhos Cantores de Viena.
26-08-2005 15:46:36

hunter wrote:

Ah, tem foto muito melhor. As das capas da fase dos discos da West Coast são maravilhosas.
O inútil aqui é que não consegue colocar foto direito. Essa é da autobiografia (altamente mentirosa, como todas) do Chesney.
26-08-2005 15:50:09

Sergio wrote:

Com os garotinhos de Viena, num sei, não, mas tem com o saxofonista Bill "Blow Job" Clinton.
26-08-2005 16:03:29

captcha wrote:

Mas aquela lua de fundo e ele de galã na poltrona (ou aplicando o teste do sofá), é hilário!
26-08-2005 16:08:33

hunter wrote:

Essa é especialmente horrível. As boas são do Bill Claxton.
26-08-2005 16:09:41

hunter wrote:

Tudo sempre pode ser pior. Por exemplo, o Caê pode inventar de gravar "My Funny valentine" em versão bolero para o próximo Almodóvar.
26-08-2005 16:11:14

Sergio wrote:

Possa ser, Hunter "Eu, Caçador de Mim" Thompson. Aquele velso "is your figure less than greek" cabe direitinho numa homenagem ao amor grego.
26-08-2005 16:33:29

hunter wrote:

Tipo alguma atrocidade cometida pelo Beto Guedes, o sexto Beatle que foi abandonado em Minas pela mãe do Ringo por ser retardado.
26-08-2005 16:42:34

Zeno wrote:

Essa do Beto Guedes é sensacional...
29-08-2005 10:51:23


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