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Travel & Living no Hipopótamo Zeno Channel

Por DJ Mandacaru

Se valer impressão de 20 anos atrás, fecho com o Pedro.

Éramos três casais em dois bugs dispostos a fazer o roteiro Fortaleza-Natal. Pela praia. Uns doze dias de viagem, com algumas paradas pelo caminho. Chegamos em Icapuí no terceiro dia, com o sol quase se pondo, uma das imagens mais lindas que eu já vi. Um dos caras descobrira a praia seis meses antes. Fotografou - e ficou amigo de - todo mundo. Nessa viagem ele levava as cópias, para muita gente do local era a primeira vez que se viam em retratos. Um pescador amigo cedeu sua casa - quarto e sala, com armadores suficientes para penduramos nossas redes - e mudou-se para a casa da mãe.

Durante os dias, ócio na varandinha da casa, a uns dez metros do oceano (maré cheia), cerveja gelando num isopor, cana da boa. A meninada, excitadíssima com os estrangeiros, se encarregava de pegar mexilhões brancos e lagostins, que eram imediatamente levados à panela, numa fogueirinha ali do lado. De tempero, só limão e sal. Quando cansavam de brincar de pescar para os novos amigos, ajudavam as mães, na varanda ao lado, a fazer toalhas de renda, gigantescas, o tecido sendo pacientemente desfiado e fiado novamente, com desenhos intrincadíssimos, ou simplesmente começavam uma outra brincadeira, com aquela energia inesgotável que um dia já tivemos.

Uma noite, fui até o boteco mais próximo renovar o estoque de cerveja. Geladeira a querosene, os três pinguços de lei, uma televisãozinha P&B ligada na bateria de um carro, um "côco de bigodes" anunciando o primeiro plano de récuperação da économia nácional - tava tudo congelado, a moeda mudava de nome. Na hora, decidi que era delirium tremens.

No dia seguinte, a consciência pesou e resolvi ir à cidade para comprar jornais. O primeiro a quem perguntei, me disse que ali só chegavam dois jornais. Pedi um exemplar de cada e ele me explicou melhor: chegavam dois jornais, sim, um pra delegacia, outro pra prefeitura. Achei melhor ler o da prefeitura. Na chegada, a primeira surpresa: o orçamento mensal, com o detalhamento de todos os gastos, estava pintado no muro lateral do prédio. No prédio vizinho, um mural vazado no, digamos assim, estilo pictórico do realismo socialista, mostrava um cara parecido com o Hulk, martelo na mão, prestes (ai!) a desfechar uma porrada num cubo a seus pés, onde estava escrito "pacote da dominação burguesa". Mais adiante, outro mural, uma esposa de jangadeiro, dois cinturões de balas de fuzil cruzados no peito, bordando uma bandeira do PT. Baqueei - o delirium continuava?

Em meia hora de conversa, entendi. O PT ganhara a última eleição municipal, uma das primeiras do Brasil, a primeira do Ceará, e estava promovendo uma revolução na administração local. A prestação de contas era pública e renovada mensalmente nos muros da prefeitura. O calendário escolar fora alterado - as férias começavam em setembro para que as crianças pudessem ajudar os pais na colheita do caju, talvez a principal fonte de renda local. Um ônibus velho recolhia as crianças que moravam mais distante e se encarregava de devolvê-las no final das aulas. Não havia criança fora da escola no município. Todas as casas tinham filtro de água, dado pela prefeitura, enfermeiros cuidavam do mesmo grupo de famílias, como parte de um programa de saúde apoiada pelo governo estadual. O índice de mortes por disenteria despencara e era um dos mais baixos do Brasil.

Tá bom, era no cu-do-judas, economia agrária ou simplesmente extrativista, a arrecadação municipal devia ser menor do que a da rua Teodoro Sampaio, aqui em Pinheiros. Mas percebem o que poderia ter sido?
posted at 17:41:28 on 04-11-2005 by Pinto - Category: Je me souviens


Comentários

Zeno wrote:

Posso mudar a beleza de texto acima de categoria, de "Microcontos" para o apropriadíssimo, penso, "Je me souviens", por conta da promessa do que poderia ter sido que não sai da memória?

Já mudei.
07-11-2005 09:14:37


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