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Edulcora, meu amor, edulcora

A pedidos insistentes do nosso redator-chefe, resolvo atendê-lo e colocar aqui um poema de minha predileção, como forma de reduzir a quota de cinismo e incrementar a de glicose deste blogue.

O autor chama-se António Gedeão, pseudônimo literário de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho (1906-1997), e a obra-prima chama-se "Impressão digital", in "Movimento perpétuo", de 1956. Diz assim, e confira se não é para emoldurar, coisa que aliás o fiz há tempos:

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandescente.

Inútil seguir vizinhos,
que ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.


E, agora para não perder o hábito e contrabalancear o dulçor com um pouco de cinismo, digo que há tanta poesia nisto quanto na moral desta história: que há coisas como cu, cada um tem o seu.
posted at 15:00:00 on 16-01-2007 by Pinto - Category: Tectum Intuentes


Comentários

Ticcia wrote:

Pois eu vejo cataventos.
17-01-2007 10:41:58


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