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Aos 12 anos

O nome dele era Mário. Era do tipo calado, magro, olhos fundos e poucos amigos. Nós estávamos na 6a série e como ele morava perto da escola, a gente sempre ia na casa dele ver as revistas que ficavam escondidas dentro de uma caixa de som.

Um dia, não sei porque, jantamos com seu pai e irmã - sua mãe já tinha morrido, o que explica boa parte daquele jeito do Mário e da casa dele. Apesar de ter ido lá várias vezes, aquela era a primeira vez que encontrava alguém além da empregada.

Na sala de jantar notei os quadros horrorosos na parede, todos muito coloridos, com figuras fora das proporções, chapadas, sem sombras ou mistura de cores. Como eu já estudava pintura desde os 10 anos, sabia que se tratava de alguém com poucos talentos para a coisa ou que nunca havia frequentado uma aula de pintura. Mas os quadros eram tantos e tão grandes que resolvi não tocar no assunto. Eles deviam gostar daquilo.

Em breve veio a explicação. No meio do silêncio daquele jantar, a irmã tocou no assunto dos tais quadros. Eram de uma tia do Mário. Como ninguém na mesa havia se dignado a dar continuidade na conversa, resolvi ser delicado e comentei que minha tia também pintava. O pai, que até então estava calado, perguntou o nome dela e que tipo de pintura ela fazia. Mais do que depressa e feliz de ter emplacado uma conversa, disse que o nome dela era Maria Helena e que ela não pintava quadros, mas estátuas de gesso, de chineses ou cachorros, já tinha até pintado um presépio, que ela comprava, pintava e depois, graças a uma técnica especial, fazia com que elas parececem ter mais de 100 anos de idade. Muita gente achava que ela deveria tentar vender as estátuas, mas não adiantava que ela não vendia nenhuma. Pintava por prazer. Ele sorriu e a conversa parou por aí.

Três semanas depois, no início de uma das aulas de Educação Artística, o professor disse que começaríamos a estudar o movimento modernista e que ele gostaria de lembrar que um de nossos colegas, o Mário do Amaral, era sobrinho de uma das grandes, senão a maior expressão do modernismo nas artes plásticas, Tarsila do Amaral. Ele abre um desses livros cheios de fotos e mostra para a classe. Eram quadros da Tarsila e a metade eu já tinha visto nas paredes da casa do Mário.

Aos 12, você pode não saber quem é a Tarsila do Amaral, mas já sabe o que é sentir vergonha. Nunca mais voltei lá.
posted at 11:23:38 on 10-11-2003 by Zeno - Category: Zenices


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