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"É proibido fumar", de Roberto Carlos

O ano era 1964, aquele que, mais que 1968, não só não acabou como ainda continua a balizar o rega-bofe da vida cultural brasileira. O objeto, uma bolacha de petróleo cheia de sulcos e com um buraco no meio,...

...recém-batizada à época de Long-Playing e que depois atravessou os lustros até adquirir sua roupagem de zeros e uns de hoje, com os caracteres gravados numa superfície espelhada que incita a cumplicidade do ouvinte-narciso. O autor, um jovem talento que acabara de estourar nas paradas do ano anterior com dois sucessos inesperados, a onomatopaica “Splish Splash” e a anárquica “Parei na contramão”, uma canção que inaugurava na Música Popular Brasileira a temática “Infrações de trânsito”, de longa e próspera fortuna nas décadas seguintes.

O comportado cancioneiro nacional daqueles tempos, entupido desde a década anterior com barquinhos, patos e peixinhos a nadar no mar (sem esquecer dos indefectíveis abajures-lilases e das dores de corno distribuídas a granel, vindas dos samba-canções e dos boleros), jamais se recuperaria da erupção tectônica conhecida depois como Jovem Guarda.

Estamos falando, claro, do hoje Rei Roberto Carlos (RRC) e de seu disco “É proibido fumar”, o terceiro de sua carreira e até hoje marco insuperável da canção de protesto no Brasil. Esta é a tese polêmica que pretendemos provar, mostrando como um artista jovem vindo da periferia (sem demérito à bela Cachoeiro – um forte abraço ao Prefeito Theodorico Ferraço!), precocemente adotado pela Indústria Cultural, pôde, com a perícia e a sutileza que ressaltaremos, dar uma banana sub-reptícia pro sistema e produzir o disco mais engajado e épatant que se tem notícia no mainstream da Cultura Popular de Consumo do Brasil (CPC do B). Havia algo de podre naquelas jovens tardes de domingo - e ele sabia.

Faixa Um [clique na faixa para ouvir um trecho]
O disco abre com a flamejante “É proibido fumar”, de autoria do próprio Bardo da Perna Mecânica (BPM) e de seu fiel companheiro de aventuras, o Brasa Erasmo Carlos (BEC). O tom para o restante do disco está dado aqui: contra o poder estabelecido do “aviso que diz”, contra a figura patética do bombeiro inepto, BPM segue “incendiando bem contente e feliz”, incitando as massas a se rebelarem e pregando o amor livre e o sexo selvagem (“garota pegou fogo em mim”). Ecos da desobediência civil de Henry Thoreau, que até então eram apenas pressentidos em obras anteriores (a citada “Parei na contramão”, por exemplo), são dispostos nesta primeira faixa sob a forma de um abre-alas que grita “Abandonai vossas esperanças pequeno-burguesas, vós que entrais aqui”.

Faixa Dois [clique na faixa para ouvir um trecho]
“Um leão está solto nas ruas” anuncia, com tons sombrios, a preocupação política do Rebento de Lady Laura (RLL) e seus poderes premonitórios no que diz respeito à conjuntura do país. O início dos Anos de Chumbo do governo militar aparece materializado na figura de um leão que foge (“foi descuido do seu domador”) e que ameaça a população civil com suas buscas e apreensões arbitrárias (“você que está em casa um conselho vou dar/ feche as janelas, tranque bem o portão”). Além disso, num lance de genialidade, o Rei Roberto Carlos (RRC) cruza história política e história pessoal ao mostrar seu desespero quanto ao destino de sua amada, alvo fácil do Golpe (“se ele encontra o meu broto por aí”), presumivelmente por ela já fazer parte, naqueles tempos, dos movimentos de resistência que precocemente se articulavam.

Faixa Três [clique na faixa para ouvir um trecho]
Momento lírico-participante do disco, “Rosinha” é uma evidente homenagem do Moço de Cachoeiro (MC) a Rosa Luxemburgo, célebre líder ativista alemã (na verdade, de origem russo-polonesa) das primeiras décadas do século, assassinada pelas forças retrógradas da República de Weimar em 1919. A canção traz também uma série de trocadilhos e ressonâncias de termos alemães vertidos para o português (minha/meine e boca/Munde; amor/Liebe, vida/Leben e querida/liebe), o que nos faz pensar se o Ídolo da Juventude (IJ) não estaria se referindo também ao famoso poema de Goethe, “Rosinha do Silvado”, cujo refrão diz: “Linda, linda rosa corada/ Rosinha do silvado” (“Röslein, Röslein, Röslein rot/ Röslein auf der Heiden”).

(segue em futuros posts)
posted at 17:54:53 on 12-11-2003 by sattin - Category: Zenices


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