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Joseph Conrad e Chance

Num dos textos publicados na revista Sur, em agosto de 1941 (recolhido depois na coletânea "Borges en Sur", da editora Emecé), Jorge Luis Borges comenta, a propósito de Cidadão Kane, que o filme tem uma estrutura narrativa semelhante à empregada por Joseph Conrad no romance Chance, ou "A força do acaso" na fraca tradução brasileira da editora Marco Zero. Mesmo um ex-conradiano amador e distraído como eu não perderia uma dica dessas como desculpa para finalmente ler o livro. O romance é construído a partir da justaposição de três narradores principais, Marlow (que aparece em outros livros de Conrad, como Lord Jim, Coração das Trevas e Juventude), Powell e um terceiro não-nomeado que costura as falas com seu papel de ouvinte, sendo dois deles (Marlow e Powell) partícipes diretos ou indiretos na história. Além dos três, trechos reveladores da história são postos na boca dos personagens principais, como as longas narrações da mocinha Flora ou do seu quase protetor Fyne.
Amarrados pelo leitmotiv do acaso (um paradoxo que deve ter proporcionado a Conrad alguns momentos de diversão irônica), os episódios rocambolescos vão se juntando aos trancos para culminar numa penúltima seqüência de arrepiar (pra quem leu, é a dos eventos testemunhados por Powell através da clarabóia de vidro) e numa última cena lamentável de novela das seis. Segundo Luiz Costa Lima, em ensaio publicado em seu mais recente livro ("O redemunho do horror"), vozes qualificadas como as de Henry James e Virginia Woolf desqualificaram o livro seja pelo excessivo movimento especular dos narradores, que trairia a autenticidade dramática do relato, seja pela verborragia descritiva descalibrada, que comprometeria uma apresentação mais nuançada de alguns personagens.
A primeira acusação é injusta, a segunda é incontornável. Há uma lentidão conjecturante e gordurosa na narrativa que nem o mais ardoroso fã de Conrad conseguiria justificar, e cujo ponto alto estabelece o que deve ser uma espécie de recorde literário do início do século XX: um diálogo entre Powell e Flora que se arrasta por 43 páginas e no qual os dois não trocam mais que uma dúzia de frases relevantes.
Do lado positivo, em meio às opiniões de Marlow sobre deus, o mundo, os homens, as mulheres e o oceano, salta no capítulo 6 da Segunda Parte um trecho magnífico: "Formar pares é a sina da humanidade. E se dois seres, que estão juntos e mutuamente se atraem, se opõem a essa necessidade, não conseguem se entender e voluntariamente se refreiam diante do... do enlace [embrace], no mais nobre sentido do termo, então estão cometendo um pecado contra a vida, cujo apelo é simples. E talvez sagrado. E a punição para isso é um surto de complexidade, um emaranhado de sentimentos atormentadores, forçosamente tortuosos, a forma mais profunda de sofrimento da qual, na verdade, pode decorrer por fim algo significativo, que poderá ser criminoso ou heróico, loucura ou sensatez... ou mesmo uma decisão correta embora desesperante."
Não conheço melhor definição para a maioria do imbróglios românticos vistos por aí em terras aquém e além do Atlântico.

posted at 07:32:00 on 11-09-2004 by Zeno - Category: Tectum Intuentes


Comentários

John Self wrote:

1 djzéasszz 0
no ângulo:
m/o q. de canela
m/o q. perdendo
m/o q. inútil
sim aindassim
ñ ainda ñ
13-09-2004 00:23:33

Zeno wrote:

Faltou mencionar mais três textos em português sobre Conrad (e sobre aspectos de "Chance"): um, excelente, de Antonio Candido, em "Tese e Antítese", e dois de O.M. Carpeaux, "Mistério de Joseph Conrad" (em "Ensaios Reunidos"), bem ruim, e "Sobre a técnica de Conrad" (em "Sobre Letras e Artes"), de mediano interesse. Bacana mesmo deve ser o estudo de Ian Watt citado por L. Costa Lima, "Conrad, James and Chance", presente no livro "Imagined Worlds", que será lido quando a Amazon resolver ceder livros gratuitamente a leitores interessados.
13-09-2004 19:52:35

ac wrote:

E como apareceram esses acentos no nome do mestre-açu?
18-09-2004 13:05:50

Zeno wrote:

Perdão?
20-09-2004 11:28:21

inculta wrote:

Pelo que se diz por aí, no nome do mestre não pousa nada. Contra o que diz o professor Pasquale, o Houaiss, o seu Aurélio... Quem sabe não é tal da desobediência civil até no nome...
21-09-2004 16:19:37

Zeno wrote:

Só agora entendi do que se tratava... Seguem a correção e as vênias ao marido da Dona Gilda.
21-09-2004 18:19:57


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