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Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958)

Não somos loucos de escrever um texto sobre um filme que já foi virado do avesso de tudo quanto é jeito possí­vel (menos de um especí­fico jeito, ahã, filosófico, mas esse palpite é tão bom que vamos guardar prum texto acadêmico a não ser escrito em futuro incerto). Pra quem não viu a pesquisa, o filme foi eleito ano passado o mais importante da história do cinema no ranking confiabilíssimo do British Film Institute em parceria com a revista Sight and Sound (naquela votação que acontece de dez em dez anos e que tem, a seu favor, a qualidade e a quantidade da amostragem dos consultados). Por que o filme aparece, então, aqui no Hipopótamo? Porque está sendo exibido em tela grande em algumas cidades do país e isso merece registro mais detido. Vamulá:

..a cópia exibida é digital, com padrão de qualidade blu-ray. "É melhor então assistir em casa?". Não, caro leitor, a não ser que você tenha uma tela de nãoseiquantosmetros na sala.

..o operador da projeção na sala do Shopping da Pompéia, em SP, deve ter se atrapalhado com os botões do controle remoto, porque a versão estava com legendas em português de Portugal. Funcionou como um layer a mais, sem dúvida. Sem falar no fato de que descobrimos como o filme se chama lá na Terrinha: "A mulher que viveu duas vezes", mais um item na imorredoura galeria dos tí­tulos de filme que entregam o plot, como o igualmente português "O filho que era a mãe" pro "Psicose" - mas esse é piada, porque o filme em Portugal se chama "Psico".

..havia 15 almas abnegadas na única sessão do dia, na sala 3 que comporta 198 comedores de pipoca, o que significa: corra, Lola, porque vai sair de cartaz antes que você seja capaz de dizer San Juan Bautista, o vilarejo que serviu de locação pra seqüência da torre.

..o que mais chamou a atenção graças à tela grande:

a) a paleta de cores deslumbrante, desde os menores objetos - almofadas verdes do apartamento de Scottie, por exemplo - até o vermelhão da Golden Gate na cena do mergulho (e pra quem gosta de análise conteudística de filmes, tem até maluco que fez associação entre cores e temas ao longo das diferentes cenas).

b) a trilha do Bernard Herrmann, que definitivamente carrega o filme nas costas nos momentos de suspense, muito mais do que quando se vê o filme na TV de casa. Aliás, ela não carrega o suspense - ela é o suspense. Veja-se, por exemplo, o uso dosado dela nas cenas em que Scottie vigia os passeios de Madeleine: os acordes surgem nas externas (museu, cemitério, etc) e desaparecem quando ele está dentro do carro, com a cidade em back projection. Outra coisa: as citações wagnerianas de Tristão e Isolda na trilha ajudam a dar densidade ao amor impossí­vel dos dois, com aquele palpite inconsciente que fica no fundo da cabeça do espectador, "hum, esse negócio não vai acabar bem".

c) o desempenho do James Stewart - os metros a mais de tela nos dão a certeza de acompanhar a paixão e a perversão corporificadas em um rosto, em gestos, em olhares, no tom de voz, enfim, naquilo que faz um ator ser genial.

..já perdemos a conta de quantas vezes vimos o filme, mas em todas elas a sensação sempre volta: o acerto de se antecipar a "revelação", o twist da trama, que acontece com 1h19min de filme, permitindo que o restante, quase 50 min, se ocupe do que realmente interessa, a montagem progressiva da obsessão que parte de uma espécie de zero psí­quico, isto é, da catatonia literal em que Scottie se encontra depois de perder seu grande amor, e que vai puxando fios e ecos de tudo quanto é referência que se possa imaginar, um leque que cobre Pigmaleão e Galatea, Orfeu e Eurídice, Proust, etc, sem esquecer da necrofilia e da suprema crueldade dos deuses que é dar de volta ao herói a amada morta para matá-la uma segunda vez. Que tudo isso, de quebra, termine com um dos planos finais mais arrepiantes da história do cinema, é só mais um tira-chapéu ao Velho Hitch.

..se a segunda parte se ocupa da obsessão, a primeira é a montagem da paixão, e de novo é preciso que o chapéu seja levantado: poucas vezes no cinema o recurso conhecido do "fazer a personagem masculina se apaixonar pela mulher misteriosa/Bonitona com Amnésia (copyright Tom Gauld; é a nova encarnação da nossa boa e velha Garota Tipinho Problemática) foi tão bem feito como aqui. Basta comparar as falas e atitudes de Madeleine com as de Judy, e que seja a mesma atriz a fazer as duas é novamente crueldade bem pensada: a primeira, lacônica, vaga, fugidia, "oh, onde estou?"; a segunda, bola pra frente, veio dos cafundós do Kansas, "ai que vontade de comer um bife!". Em qual cumbuca o pobre Scottie e quase a totalidade da minha agenda de telefones de amigos quer botar a mão?

..um último elogio a se ver o filme em tela grande: quando é que você vai ter outra chance de ver o suéter verde da Kim Novak estampado em generosos metros quadrados, em vez dos centímetros acanhados da sua TV? Se o cinema, já disse um sujeito muito mais esperto do que nós, "é a arte de mostrar mulheres bonitas fazendo coisas", não conhecemos exemplo melhor do que a Kim Novak zanzando pra lá e pra cá com aquele suéter.

..brinde final, pra quem teve pachorra de ler até aqui: amanhã postaremos a trilha do filme, na edição de 1996 do selo Varese Sarabande, dando prosseguimento ao pagamento de promessa feito ao nosso sabático DJ Mandacaru.

posted at 17:55:58 on 18-12-2013 by Zeno - Category: Filmes esquisitos


Comentários

DJ Não Sei Se Vou, Não Sei Se Fico wrote:

Assim, tipo a Monica Vitti entrando e saindo de cena?
19-12-2013 07:51:22

Zeno Nem Um Pouco Obsessivo wrote:

Exatamente...

E já que isso aí em cima não é resenha nem análise, cabem mais algumas obs soltas, se você for do tipo obsessivo-detalhista (nós não somos, longe disso):

..quem se lembra de um filme em que há um único plano feio? Pros curiosos, é o plano curto que antecede o plano aberto da sala onde ocorre o julgamento do suicídio de Madeleine. A câmera, do lado de fora do prédio, dá um zoom esquisito que a leva até a janela da sala onde estão os participantes do julgamento. Destoa completamente do restante do filme, e acho que só foi usada porque Hitch precisava passar para a tal sala e não quis fazer um corte seco fora/dentro.

..e por falar nisso, quem se acostumou a ver nos filmes dele aqueles movimentos de câmera alucinados, coreográficos, etc, aqui não encontra nada, ou quase nada disso: além do take famoso que cria a ilusão de vertigem, os que chamam a atenção, salvo engano, são dois: a primeira aparição de Madeleine, no restaurante, com a câmera varrendo o ambiente da direita para a esquerda e depois voltando, e o beijo em 360 graus, próximo do fim, quando a câmera circula em volta dos atores e o fundo se altera, do quarto onde estavam para o celeiro da missão espanhola. O restante do filme, porém, é de uma elegância justamente não-pirotécnica, planos com a câmera exatamente onde deveria estar, cortes limpos, pequenos movimentos para destacar detalhes, etc, como um diretor que dissesse: "Olha, eu domino tão bem esse negócio que nem preciso fazer fru-fru".

..outra coisa curiosa é o insano jogo de duplicação/reduplicação/re-reduplicação/etc que o filme oferece a todo momento. Pra ficar no mais gritante:

Na primeira metade, para quem já viu o filme e sabe da reviravolta, Kim Novak é uma atriz dirigida por Hitchcock e que faz o papel de Judy. Judy é dirigida pela personagem do pilantrón Elster para fazer o papel de Madeleine, sua esposa. Madeleine é dirigida por forças do além para fazer o papel de Carlota, sua antepassada/bisavó. Carlota e a falsa Madeleine fingem o suicídio, para que a verdadeira Madeleine morra e Judy possa voltar à vida.

Na primeira metade, e pra quem ainda não sabe da reviravolta, Kim Novak é uma atriz dirigida por Hitchcock e que faz o papel de Madeleine. Madeleine é dirigida por forças do além para fazer o papel de Carlota, sua antepassada/bisavó. Carlota e Madeleine morrem ao pular da torre. Não há Judy.

Na segunda metade, pós-revelação: Kim Novak é uma atriz dirigida por Hitchcock e que faz o papel de Judy. Só que Judy, agora, é dirigida por Scottie para fazer o papel de Madeleine mais uma vez, como ela já havia feito para Elster. Judy e Madeleine morrem ao pular da torre uma segunda vez. Não há Carlota.

..frases batutas sobre o filme, tiradas da contracapa de um livro chamado "Vertigo - The Making of a Hitchcock Classic", um presente que ganhei de uma querida amiga há anos e que só agora mereceu toda a atenção devida:

"Vertigo is the ultimate movie";
"The real, and terrifying, end of the investigation is a diagram of the cruel geometry of desire";
"it's prized (...) for its literary layering of memory and obsession";

..do textos que li na rede sobre o filme, não há nada muito espectacular, salvo este artigo aqui do NYT:
http://www.nytimes.com/2008/05/11/movies/11raff.html?_r=0

..em compensação, dois textos impressos são obrigatórios, e pelo menos um deles está disponível on line para os demais obsessivos: a resenha que Cabrera Infante fez do filme quando da estréia em Cuba, em 1959 (ele o chama de o "primeiro filme surrealista da história"), e o texto do sempre genial Chris Marker, relembrando seu primeiro contato com o filme e as mudanças de percepção ao longo dos anos. Tem tanta idéia boa no texto do Marker que não dá nem pra resumir, mas fica o registro aqui de pelo menos uma que é sensacional: e se toda a segunda parte do filme não passasse de fruto da imaginação de Scottie, isto é, e se ele, depois da crise e da catatonia, permanecesse preso no manicômio pelo resto dos seus dias, imaginando o que vemos na segunda parte da história? O texto do Marker está disponível aqui: http://www.chrismarker.org/a-free-replay-notes-on-vertigo/
20-12-2013 10:29:40

Zeno Esquecido wrote:

Ops, esqueci de citar o ótimo trechinho final do texto do Cabrera Infante:

"Esa sensación de estar arriba en la cima y sentirse atraído por el fondo del abismo, de querer hundirse en la sima y sentir aterrados que los deseos van a realizarse de manera inminente, ese viaje del espacio por el tiempo y la exacta sensación de que el fondo sube hasta nosotros al tiempo que nosotros bajamos hasta el fondo, curiosamente, se llama 'vértigo'"
20-12-2013 11:00:17

g. y los qeiubans qui no hay wrote:

tava maravilhoso.

até entrar esse beihaian-qeiuban do infante pra, pra variá falando demais pra mt pouco, descrevê uquê:

que qdo a-gente tá pra tomá um p. tombo, daqueles pra valê, a-gente vê direitinho o tombo vindo porque a cabeça desenhou essa m. antes, mas não acreditou que ia ser tão burra, e tão hábil (pqnosp), de realizar...
e depois, ainda, esquece tudo, por isso mesmo.

qqer pédecana sabe isso,
espetacularmente bem, por sinal.

o que vinha antes tava mt além desse tranquera.
27-12-2013 02:54:23


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