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Dois ou três pitacos sobre a Segunda Temporada de House Of Cards (2014)

Se havia alguma dúvida na primeira temporada, esta aqui deixa tudo às claras: é Macbeth, puro e simples, embora o pobre Bardo tenha escrito enxutas páginas (a peça tem a metade do tamanho do Hamlet, por exemplo) e a rapaziada que assina os roteiros do seriado tenha enfiado subplot atrás de subplot em 13+13 episódios. Mas, pqp, que espetáculo de Macbeth atualizado, esse.

[pausa pruma divagação: depois que o Kurosawa abriu a porteira, no superestimado “Trono Manchado de Sangue/Kumonosu-jo” de 1957, transpondo o Macbeth escocês pro Japão do século XVI, qualquer um com dois neurônios já pensou em fazer uma adaptação da peça para os mais diversos contextos, desde disputas no mundo corporativo, passando por versões ambientadas em favelas, até chegar no síndico do condomínio de um prédio, casado com aquela megera manipuladora. Que nada disso tenha resultado em coisa boa, e que o seriado americano saia ileso, já diz muito sobre suas qualidades.]

Agora, que fique claro: é uma bobagem, ou melhor, é diminuir a importância do troço classificá-lo como uma “série que desvenda os bastidores da política americana”, ou coisa assim. Pra isso, temos aí um desses West Wing da vida, que nunca vi e nem sei se vale a pena. É uma aula, sim, sobre o funcionamento de relações de poder e de negociação, sobre adequação do caso à regra e da implosão desta por aquele, sobre o debate entre leis e democracia, ou entre legalidade e exploração de limites, sobre a construção contínua do assim chamado “jogo político”, com todos os puxões de tapete e alianças de praxe, sobre como, em qualquer situação cotidiana, e não só na política institucional, tensões de mando e de subserviência são postas e desfeitas, enfim, sobre esse troço estranho chamado nossa vidinha – com a peculiaridade de que a vidinha em Washington parece ser um caso exemplar de Ellenbogengesellschaft, “sociedade da cotovelada”, expressão alemã de sucesso na década de oitenta, em que todo mundo se acotovelava pra poder vencer a concorrência e pegar o solzinho yuppie da época.

Agora umas obs miúdas:

As soluções visuais são falsamente simples, não sei se decididas pela trinca de diretores David Fincher/James Foley (adorava os filmes do cara nos anos oitenta)/Carl Franklin: tem um monte de campo/contracampo, que é a linguagem tradicional de televisão, mas tem também o uso preciso de cenas abertas, câmera filmando à distância, pra dar respiro e pra dar aquela sensação de “evento cósmico importante”, isto é, o espectador não enxerga direito o que está acontecendo, mas deve ser uma coisa crucial. Em menor escala, cada vez que a câmera abre e mostra todo mundo ou apenas duas ou três pessoas ao redor de uma mesa, numa sala, num papo, você entende o recado visual. Idem pros pequenos ruídos, um deslocamento de câmera sutil que enquadra a personagem de baixo pra cima, a mostrar sua importância, ou de cima pra baixo, a mostrar sua pequenez.

O roteiro: de novo, pqp - esse tal Beau Willimon, que comanda a equipe de roteiristas, deveria ser canonizado. Vocês me digam aí que roteirista consegue, a cada episódio, surpreender a audiência (“Não, não é possível que eles matem tal ou qual personagem!”) ao mesmo tempo em que puxa os fios da trama como uma lona de circo que vai subindo de modo irregular, ora um pedaço é mais importante, ora outro. Sem falar que duas das vigas-mestras, pra ficar ainda nas imagens construtivas, são falsamente erguidas, isto é, parecem ser mais importantes do que em verdade são: na primeira temporada, as situações envolvendo o deputado Peter Russo, na segunda, as negociações de idas e vindas com a China.

Não sei se já foi comentado por gente mais qualificada, mas há um truquezinho genial e recorrente de montagem dos blocos temáticos nos capítulos que é o do corte-antes-da-hora, isto é, a cena termina sem que o principal, ou melhor, aquilo que tradicionalmente chamaríamos de “principal”, a explicação, a frase que ilumina, o desfecho óbvio do enfrentamento, seja mostrado/dito/encenado. Muda-se rapidamente de assunto/bloco e o espectador fica no sofá: “Como assim? E a resposta do fulano à pergunta de sicrano?”, e assim permanecemos até que em algum bloco adiante, ou em outro episódio, a resposta seja dada. Ou mencionada. Ou nem mesmo isso.

Por último, como cereja no bolo: o seriado é tão bom que não se preocupa em esconder a homenagem discreta à melhor série de tv dos últimos tempos, as três temporadas do Sherlock da BBC, com o uso das mensagens de texto de celular aparecendo em tempo real na tela. Touché.
posted at 18:50:35 on 05-03-2014 by Zeno - Category: Filmes esquisitos


Comentários

Zeno Underwood wrote:

Como o nosso DJ Mandaca reclamou de posts longos, e a autoridade dele aqui é infinita, encaminho a nanoaudiência pra lugares menos inóspitos:

Aqui, um link sobre o perrengue de se medir audiência em seriados on demand:
http://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/a-audiencia-de-house-of-cards-segundo-twitter-11722822

Aqui, aquele diagnóstico já meio manjado - mas sempre verdadeiro - de que o talento migrou pros seriados:
http://www.salon.com/2014/03/01/how_breaking_bad_and_house_of_cards_killed_the_oscars/?utm_source=contactology&utm_medium=email&utm_campaign=Salon_Daily%20Newsletter%20(Premium)_7_30_110
05-03-2014 18:57:35

DJ Se Me Faço Entender wrote:

O cacete que eu reclamei de posts longos. O cacete que eu reclamei de qualquer post. Eu tava era elogiando a qualidade do post, seu Zé. E explicando que eu preferia me diliciar com coisas daquele tipo a voltar pro tronco.
10-03-2014 17:38:40

Zeno Prolixo wrote:

É que eu perco a piada mas não perco o amigo. Ou o contrário, não sei. Mas o Frank Underwood sabe.
10-03-2014 23:13:47

lucília wrote:

Valeu a análise! obrigada!
07-05-2014 12:33:33


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