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Inauguração da Avenida Central, Rio de Janeiro (1905)

Deu na mídia:

"Lembro-me sempre, por mais que queira esquecer, a amargura, o desespero com que pusemos os olhos rebrilhantes de orgulho naquele carro atulhado de caboclos, que a mão da providência meteu em préstito por ocasião das festas do Congresso Pan-Americano. A cabeleira da mata virgem daquela gente funesta ensombrou toda a nossa alegria. E não era para menos. Abríamos a nossa casa para convidados da mais rara distinção e de todas as nações da América. Recebíamos até norte-americanos!


Íamos mostrar-lhes a grandeza do nosso progresso, na nossa grande Avenida recém-aberta, na Avenida à beira-mar, não acabada, no Palácio Monroe, uma tetéa de açúcar branco. No melhor da festa, como se tivessem caído do céu ou subido do inferno eis os selvagens medonhos, de incultas cabeleiras metidas até os ombros, metidos com gente bem penteada, estragando a fidalguia das homenagens, desmoralizando-nos perante o estrangeiro, destruindo com o seu exotismo o nosso chiquismo. Infelizmente não era mais tempo de providenciar, de tirar aquela nódoa tupinambá da nossa correção parisiense, de esconder aqueles caboclos importunos, de, ao menos, cortar-lhes o cabelo (embora parecesse melhor a muita gente cortar-lhes a cabeça), de atenuar com escova e perfumaria aquele escândalo de bugres metediços... Não houve remédio senão aturar as feras, mas só Deus sabe que força de vontade tivemos de empregar para sorrir ao Senhor Root, responder em bom inglês ao seu inglês, vendo o nervoso que nos sacudia a mão quando empunhávamos a taça dos brindes solenes e engolir, de modo que não revelasse aos nossos hóspedes que tínhamos índios atravessados na nossa garganta. Foram dias de dor aqueles dias de glória. A figura do índio nos perseguia com a tenacidade do remorso. A sua cara imóvel interpunha-se entre a dos embaixadores e a nossa. As suas plumas verdes e amarelas quebraram a uniformidade negra das casacas. Broncas sílabas tupis pingaram, enodoando o primor das línguas educadas."

Jornal do Commercio, novembro de 1905

(para outras versões da inauguração da Avenida Central, veja-se também http://www.uol.com.br/rionosjornais/rj11.htm)
posted at 10:41:07 on 19-11-2003 by Zeno - Category: Jornal Velho


Comentários

Lucília wrote:

Parecem nossas peruas de agora que, volta e meia, reclamam dos pedintes. "Metediços" como os de outrora, aparecem com suas frases mal decoradas no farol, na mesa de calçada dos restaurantes, nos estacionamentos dos shows, etc.
Só que, nos tempos de hoje, as plumas estão com elas; as elegantes casacas pretas já se foram.
21-11-2003 12:11:47


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